Praticamente todas as cacheadas, em algum momento da vida, alisaram o cabelo quimicamente. No meu caso, os alisamentos começaram na infância. Eu era uma criança com o cabalo mais cheio que você ainda não conheceu. Era muito cabelo para a paciência da minha vó e da minha mãe.

Como elas já alisavam o próprio cabelo, esse acabou sendo um processo natural pra mim. Foi quando eu tinha cerca de 7 anos de idade que a minha juba sofreu – literalmente – o seu primeiro alisamento. Numerei todos eles cronologicamente pra explicar a minha experiência pra vocês.

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Direito do túnel do tempo rsrsrs

1. Creme alisante Issy

Não sei aí, onde você mora, mas na Bahia esse é um alisante super popular e baratinho. Eu tinha 7 anos de idade quando minha vó passou Alisante Issy no meu cabelo. Foi um dia anterior ao desfile de 7 de setembro da minha escola e eu, como todas as crianças, participaria dele. A fantasia de sol feita com pepel crepom, que eu usaria no desfile, não combinava com a minha juba de leão. Foi assim que o Issy entrou na minha vida. Eu consigo lembrar pouca coisa além do cheiro forte do alisante, mas sei que ele diminuiu o volume do meu cabelo o suficiente para que eu pudesse usá-lo solto no dia do desfile.

2. HairLife

Já morando com a minha mãe, o alisante da vez era o HairLife. Esse tinha um cheiro mais agradável do que o Issy e vinha com a promessa de “soltar os cachos”. Eu me lembro que o meu cabelo não estragava com ele, mas também não ficava incrível. Minha mãe passava mensalmente no meu cabelo e no dela pra diminuir o volume e eu acho que ela ficava satisfeita com o resultado porque permanecemos usando ele por um bom tempo.

Obs.: Aos 15 anos, eu voltei a usar o HairLife novamente, por uma única vez. Foi uma das maiores cagadas da minha vida porque a química anterior era incompatível com a amônia do HairLife. Resultado: corte químico.

3. Origem Now

Esse era o alisante preferido da minha vó e eu também aprendi a gostar dele por conta do cheiro que era bom. Como até então eu só tinha usado alisantes com amônia, meu cabelo não havia sofrido nenhum corte químico; permanecia com volume e sem cachos, mas completamente alvoroçado, como dizia minha vó.

4. AmaciHair

Aqui as coisas começaram a mudar. Esse foi o primeiro alisante mais forte que eu usei. Minha tia comprou para passar no cabelo dela e, vendo a minha juba, achou que deveria passar no meu também. O AmaciHair alisou completamente meu cabelo e diminuiu o volume. Parecia que eu tinha dado escova de tão quieto que o cabelo ficou. Mas em compensação, as pontas do meu cabelo ficaram igual a palha e ele fez algumas feridas na minha cabeça.

5. Guanidina Salon Line

Esse era o alisante do momento quando eu tinha uns 13 anos. Todas as minha amigas da escola estavam usando e eu quis usar também. Convenci a minha mãe a comprar e passei a alisar o meu cabelo com Guanidina de três em três meses por uns 4 anos. Durante esse período, meu cabelo estava sempre quebrado, com pontas duplas e parecia não crescer. Pra piorar a situação, esse alisante me fazia ir no inferno e voltar em toda aplicação. Era uma seção de tortura mesmo. Eu sentia uma ardência tão grande no couro cabeludo que parecia que eu ia morrer, de verdade! Não tinha protetor que desse jeito.

Química bônus:

Henê

Pois é. Quis ficar com o cabelo de índia e adivinha: também me dei mal. Eu já estava tão desesperada com o meu cabelo que fui partir pro tudo ou nada. Não pensei nem se a química que eu estava usando antes era compatível ou não e comecei a usar o Henê. Como você deve saber, ele afina o cabelo e deixa com aquela cor preta inconfundível.

Usando Henê, a raiz do meu cabelo continuou super alta e só as pontas lisas. Entrei em desespero. Foi um dos períodos mais difíceis pra mim. Meu cabelo estava completamente destruído e minha vontade era de raspar a cabeça, mas solução foi voltar para a guanidina.

Sim, eu me fiz de doida e passei a Guanidina no cabelo com Henê. Arrependimento foi a palavra daquele momento. Meninas, eu acordava a fronha do meu travesseiro completamente lotada de cabelo. Era assustador, uma cena de filme de terror.

6. Hidróxido de Sódio

Com o cabelo um pouco mais saudável, mas ainda sofrendo com a Guanidina, por recomendação de uma amiga, comecei a usar o Hidróxido de Sódio. Esse era um alisante menos agressivo, já que não ardia meu couro cabeludo, mas também não deixou meu cabelo muito diferente de quando eu usava a Guanidina. Durante o tempo eu que usei esse Hidróxido de Sódio, praticamente só andei com o cabelo preso, já que mesmo com escova, não me sentia bem.

7. Toin flot

Pra fechar com chave de ouro. Depois de quebrar a cara com vários alisantes na minha busca pelo liso perfeito, finalmente eu resolvi assumir meu cabelo natural. Mas depois de quase dois anos de transição capilar, achei que eu precisava soltar os meus cachos. Resultado: quebrei a cara.

Passei o Toin Flot no cabelo e o resultado foi zero cachos! Meu cabelo ficou completamente liso e esse foi um dos dias mais estressantes da minha vida. Isso aconteceu em setembro de 2013. Agora, aqui estou novamente com o cabelo natural e se eu voltar a alisar novamente, é porque eu perdi minha sanidade mental.

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Essa é uma pergunta super frequente e a minha resposta pra ela é a seguinte: a transição capilar dura o tempo suficiente para que o seu cabelo chegue ao menor comprimento confortável pra você.

Quanto mais desapegada você for, em relação ao comprimento do seu cabelo, menor será o tempo da sua transição.

A gente sabe que todo cabelo cresce cerca de um centímetro ao mês; o que resultaria em uma média de 12 centímetros por ano. Acontece que o cabelo crespo e cacheado tem uma característica que distorce o real comprimento dos fios; o fator encolhimento.

Nesse post você pode ver imagens incríveis de cabelos que encolhem mais de 70%: Fator encolhimento faz parte e você não está sozinha.

Pra início de conversa, eu sugiro que quando você decidir passar pela transição capilar, se pergunte:

  • Com qual comprimento de cabelo natural eu estarei disposta a fazer o big chop?
  • Qual é o fator encolhimento do meu cabelo?

Ana Clara – Big chop feito depois de 11 meses em transição capilar.

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Foto via: Leuxclair

QUANTO TEMPO DURARÁ A MINHA TRANSIÇÃO?

Como eu disse, comece pensando no comprimento que você deseja que o seu cabelo esteja após o corte – levando em consideração o encolhimento.

Eu sei que talvez você não tenha noção do quanto o seu cabelo encolherá; nesse caso, considere 50% (se for ondulado, considere 20%). Agora, o que você tem que fazer é somar esse fator encolhimento ao tempo de crescimento natural do seu cabelo para chegar ao comprimento desejado.

Por exemplo: Digamos que eu esteja começando a minha transição e decidi cortar o cabelo apenas quando a parte natural atingir a altura do meu queixo. Isso, nas minhas contas, demoraria 16 meses, mas como meu cabelo encolhe cerca de 50%, minha transição durará 16 meses + 8 meses = 24 meses, ou melhor, 2 anos!

Quem aguenta ficar 2 anos em transição? Só as fortes. Na minha experiência, do 3º ao 6º mês foi o período mais difícil. Normalmente, depois de 10 meses a transição começa a ficar insuportável, principalmente se o cabelo é tipo 4. Mas se o seu cabelo é ondulado, ir cortando aos poucos a parte com química pode ser mais confortável, já que é um cabelo mais fácil de desembaraçar.

Selecionei a alguns meninas que passaram pela transição capilar para inspirar vocês e para que vocês tenham uma base da duração de uma transição.

Samantha Erica – Big chop feito depois de 20 meses em transição capilar

Healthy Hair Journey – Big chop feito após 2 anos em transição capilar

Kayly Nivy: 2 anos em transição capilar

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Finalmente você cansou dos alisamentos químicos e do calor da chapinha. Finalmente você resolveu dar uma chance para si mesma e descobrir aquilo que sempre nasceu em você, mas que nunca pôde ser exatamente como é.

Essa, infelizmente, não será uma jornada fácil. É provável que a sua família não te apoie e diga que você fica mais bonita com o cabelo liso – e você concorde com isso. Para a sua surpresa, talvez aquele namorado que parecia te amar termine com você. Como se não bastasse, aparecerá vários eventos que exigem um cabelo bem arrumado, enquanto você estará com a raiz super alta.

Se você for forte e fizer o big chop, verá um monte olhares tortos e debochados. Irão dizer que cabelo curto é coisa de homem e que você está desleixada com a aparência – quando, na verdade, você nunca se preocupou tanto com a sua autoestima.

Depois do big chop, a sua relação com o seu cabelo será como a de uma criança que está descobrindo o mundo: você terá que aprender como ele se comporta, o que funciona e não funciona… Até tocá-lo será uma experiência incrível. Além disso, possivelmente, você verá que ele não forma o tipo de cacho que você esperava. É normal que ele seja mais crespo do que aparentava ser, e isso, talvez, te fará querer fazer um relaxamento pensando em soltar os cachos: não faça isso, a menos que você queira viver a transição pela segunda vez.

Se o seu cabelo for tipo 4, você terá que aprender a amá-lo. Não seja boba de sair da ditadura do liso para entrar na ditadura dos cachos perfeitos. Não seja escrava da definição. O cabelo tipo 4 é super versátil e motivos não faltam para que você viva um caso de amor com ele.

Há mais uma coisa que pode te fazer colocar tudo a perder: o fator encolhimento. Ele, junto com o desejo de cachos mais “soltos”, é uma armadilha. Você irá querer ver o cabelo crescer rápido e o fator encolhimento atrapalha, mas é preciso aceitar que o fator encolhimento faz parte – e você não está sozinha.

Sentir-se pouco feminina com o cabelo curto é comum. Pra resolver isso você pode abusar dos acessórios, como as tiaras, por exemplo – as feitas de tecido são um amor. Mas essa insegurança é passageira, logo ela dará lugar à autoestima que você nunca experimentou antes.

No fim, valerá a pena. Você não se reconhecerá mais com o cabelo liso e verá que o cabelo bom que você sonhava ter, sempre esteve ali. O volume, que era inimigo, será seu amigo, e até mesmo o frizz será bem-vindo. Ir ao salão não será uma obrigação, nos dias quentes haverá banho da cabeça aos pés e quando for à praia haverá banho de corpo e alma.

Só eu vejo o dread como uma opção para quem está passando pela transição capilar? Acho lindo e é provável que um dia vocês me vejam de dread.

Muita gente associa esse visual com a marginalidade, mas não tem nada a ver. O que temos é mais um preconceito bobo da sociedade. A mídia também não ajuda, né? Vamos combinar! Há também a questão da apropriação cultural, mas isso é uma história que não cabe no post de hoje.

Gosto dos dreads com a espessura média, nem muito grosso e nem tão fino, sabe? Os feitos de lã eu não curto muito, só se for apenas alguns próximo a nuca para dar um charme, mas essa é uma questão de gosto.

A minha trancista (eu usava tranças sintéticas) coloca dreads e eu não fiz alguns por pouco. Ela cobrava R$ 20,00 por cada um, mas acredito que o valor seja diferente para quem quer dredar o cabelo inteiro.

Sabemos o quanto é difícil lidar com as duas texturas e, para mim, a forma mais fácil de acabar com esse problema é fazendo o big chop ou adotando “estilos de proteção”, como os dreads e as tranças sintéticas.

Fala aí o que você acha. Usaria?

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É comum ouvir de algumas garotas que não “assumiram” o cabelo natural a seguinte frase:

Eu me sinto bem com o cabelo liso.

Não vejo nada de errado nisso. Eu não tenho dúvida que essa afirmação seja verdadeira. Eu também me sentia bem com o cabelo liso e me achava/acho linda com ele.

~ o problema

Eu me sentia bem, mas, ao mesmo tempo, me sentia desconfortável. Era como se eu estivesse tomando posse de algo que não era meu e que, a qualquer momento, uma menina com o cabelo liso iria chegar em mim e dizer: seu cabelo nunca ficará como o meu.

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Sim, eu tinha vários complexos. Sim, eu comparava o meu cabelo com o de outras meninas.

Muitas vezes, eu me achava bonita com o cabelo liso, mas, na maioria das vezes, eu me sentia menor por isso. Podia estar tudo bem, nada de frizz ou raiz gritando, mas tinha algo errado comigo.

~ apesar de tudo

Eu também me sentia bem com o cabelo liso, mas:

  1. Odiava ter que sentir o cheiro de química do alisante.
  2. Odiava ter que passar a prancha nos dias quentes.
  3. Odiava não poder lavar quando eu quisesse.
  4. Odiava ter carregar um guarda chuva.
  5. Odiava ter que me privar de entrar no mar.
  6. Odiava fazer exercício físico porque isso acabava com a minha escova.
  7. Odiava ver a minha raiz crescendo.
  8. Odiava ter que ir no salão e passar pelo mesmo processo químico.

Mas apesar de tudo isso, eu me sentia bem com o cabelo liso.

Até que um dia eu não aguentei mais. Cheguei ao meu limite. Cada coisa que eu tinha que fazer para manter o meu cabelo liso se tornou uma tortura. Eu percebi que aquela não era a minha única opção.

Eu continuava me achando linda com o cabelo liso (na primeira semana depois do alisamento, principalmente), apesar dele quebrar mais do baiana no carnaval, apesar dele nunca ter passado da altura dos meus ombros… Cheguei ao ponto de, quando criança, pedir a Deus para acorda com o cabelo “bom”. Era assim, eu vivia sonhando com o meu cabelo liso e grande, aquele que eu nunca tive.

O cabelo bom já estava ali, eu é que não deixava crescer. Comecei a transição capilar (sem saber que havia um nome para aquilo que eu estava passando) ainda achando que eu ficava linda com o cabelo liso e minha mãe fazia questão de me lembrar isso.

Hoje eu vejo meninas famosas com o cabelo liso bem cuidado e acho lindo. Não olho torto. Mas eu não quero isso pra mim. Não quero ter o cabelo liso às custas do meu desconforto (eu sei que talvez não seja desconfortável pra todo mundo).

~ aceitação

Eu aprendi a amar o cabelo que nasce em mim. Gostei de saber o quanto ele é macio. Gostei de saber o quanto ele é versátil. Gostei de ser eu e não gostar de mim é um desperdício de mim mesma.

É difícil ouvir, alguém que não conhece o próprio cabelo, dizer que prefere ele liso. É como me ouvir falar, anos atrás, antes de passar pela transição.

Apesar disso, não fico tentando convencer minhas amigas “alisadas” a assumir (prefiro a palavra descobrir/conhecer) o cabelo natural. Já fiz isso, mas percebi o quanto é chato para ambas. O meu cabelo natural e a mudança da minha autoestima devem ser suficientes para convencer as “alisadas” ao meu redor. É difícil não tentar convencer, eu sei. Conhece o Mito da Caverna de Platão? É algo como isso.

O cabelo da minha mãe, a pouco tempo, teve um corte químico. Ela foi ao salão, gastou o olho da cara, e depois de alguns dias o cabelo começou a quebrar/desmoronar. Ela tem o meu exemplo, mas a questão é que: ela se sente bem com o cabelo liso…

Imagine quantas estão se sentindo bem com o cabelo liso agora?