Sobre se sentir bem com o cabelo liso

É comum ouvir de algumas garotas que não “assumiram” o cabelo natural a seguinte frase:

Eu me sinto bem com o cabelo liso.

Não vejo nada de errado nisso. Eu não tenho dúvida que essa afirmação seja verdadeira. Eu também me sentia bem com o cabelo liso e me achava/acho linda com ele.

~ o problema

Eu me sentia bem, mas, ao mesmo tempo, me sentia desconfortável. Era como se eu estivesse tomando posse de algo que não era meu e que, a qualquer momento, uma menina com o cabelo liso iria chegar em mim e dizer: seu cabelo nunca ficará como o meu.

mulher-cabelo-alisado-quimicamente

Sim, eu tinha vários complexos. Sim, eu comparava o meu cabelo com o de outras meninas.

Muitas vezes, eu me achava bonita com o cabelo liso, mas, na maioria das vezes, eu me sentia menor por isso. Podia estar tudo bem, nada de frizz ou raiz gritando, mas tinha algo errado comigo.

~ apesar de tudo

Eu também me sentia bem com o cabelo liso, mas:

  1. Odiava ter que sentir o cheiro de química do alisante.
  2. Odiava ter que passar a prancha nos dias quentes.
  3. Odiava não poder lavar quando eu quisesse.
  4. Odiava ter carregar um guarda chuva.
  5. Odiava ter que me privar de entrar no mar.
  6. Odiava fazer exercício físico porque isso acabava com a minha escova.
  7. Odiava ver a minha raiz crescendo.
  8. Odiava ter que ir no salão e passar pelo mesmo processo químico.

Mas apesar de tudo isso, eu me sentia bem com o cabelo liso.

Até que um dia eu não aguentei mais. Cheguei ao meu limite. Cada coisa que eu tinha que fazer para manter o meu cabelo liso se tornou uma tortura. Eu percebi que aquela não era a minha única opção.

Eu continuava me achando linda com o cabelo liso (na primeira semana depois do alisamento, principalmente), apesar dele quebrar mais do baiana no carnaval, apesar dele nunca ter passado da altura dos meus ombros… Cheguei ao ponto de, quando criança, pedir a Deus para acorda com o cabelo “bom”. Era assim, eu vivia sonhando com o meu cabelo liso e grande, aquele que eu nunca tive.

O cabelo bom já estava ali, eu é que não deixava crescer. Comecei a transição capilar (sem saber que havia um nome para aquilo que eu estava passando) ainda achando que eu ficava linda com o cabelo liso e minha mãe fazia questão de me lembrar isso.

Hoje eu vejo meninas famosas com o cabelo liso bem cuidado e acho lindo. Não olho torto. Mas eu não quero isso pra mim. Não quero ter o cabelo liso às custas do meu desconforto (eu sei que talvez não seja desconfortável pra todo mundo).

~ aceitação

Eu aprendi a amar o cabelo que nasce em mim. Gostei de saber o quanto ele é macio. Gostei de saber o quanto ele é versátil. Gostei de ser eu e não gostar de mim é um desperdício de mim mesma.

É difícil ouvir, alguém que não conhece o próprio cabelo, dizer que prefere ele liso. É como me ouvir falar, anos atrás, antes de passar pela transição.

Apesar disso, não fico tentando convencer minhas amigas “alisadas” a assumir (prefiro a palavra descobrir/conhecer) o cabelo natural. Já fiz isso, mas percebi o quanto é chato para ambas. O meu cabelo natural e a mudança da minha autoestima devem ser suficientes para convencer as “alisadas” ao meu redor. É difícil não tentar convencer, eu sei. Conhece o Mito da Caverna de Platão? É algo como isso.

O cabelo da minha mãe, a pouco tempo, teve um corte químico. Ela foi ao salão, gastou o olho da cara, e depois de alguns dias o cabelo começou a quebrar/desmoronar. Ela tem o meu exemplo, mas a questão é que: ela se sente bem com o cabelo liso…

Imagine quantas estão se sentindo bem com o cabelo liso agora?

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  • Aline

    Eu tenho vivido um dilema, porque nasci com cabelo liso e ele se manteve assim até os meus 15 anos.

    Um dia ele começou a ficar seco e com um aspecto diferente que se sobressaia na parte inferior e isso me assustou, eu não sabia como cuidar, não porque achava cabelo cacheado feio, mas porque eu não fazia ideia de como lidar com ele… Ao contrário do que ouço, eu cresci em um lugar onde eu era a única das minhas amigas a ter cabelo liso na rua, na escola havia cabelos lisos, mas aquelas amigas que sempre estavam junto comigo tinham lindos cachos que eu ficava encantada, mas quando meu cabelo começou a mudar comecei a prender, vivia de coque porque não conseguia deixar nem mesmo o rabo de cavalo.

    O tempo passou e eu ouvia de muitas pessoas ” Solta esse cabelo, um dia você vai se arrepender” mas ele era volumoso e ondulado…

    Um dia aprendi a fazer touca ( sim aquelas do tempo da vovó) e fui escravizada a não colocar o nariz para fora de casa um dia todo que era o tempo que demorava para secar, muitas vezes sentia dor por tentar dormir com todos aqueles grampos no cabelo, mas pelo menos eu conseguia deixa-los solto… mas só o cabelo, porque eu estava totalmente presa a tudo isso.

    Depois de alguns anos, começaram as chapinhas e eu fui dormir na casa de uma amiga da faculdade e vi a maneira como ela fazia e sabia o que fazer COMPRAR UMA CHAPINHA URGENTE!!!

    Passei então a ser escrava do secador e da chapinha, mas pelo menos agora não passava o dia enfornada dentro de casa com aquela touca horrorosa!

    Isso foi um passo para a progressiva e ai sim meus problemas foram resolvidos, minha raiz é lisa e demorava bastante para ter que refazer e fui fazendo, fazendo… até que meu cabelo ficou fraco, quebradiço e chegou ao ponto atual, estou praticamente a 03 anos sem progressiva.

    Acho lindo as técnicas, a aceitação… comecei a utilizar a técnica do low poo, Maaaaas meu cabelo é ondulado, mas não é um ondulado bonito, se for naquelas tabelas de tipo de cachos creio que seja um 2 C ou no máximo 3 A talvez….

    O problema é que ele só dura um dia, mesmo dormindo com o penteado abacaxi ele fica terrível no dia seguinte, já assisti todos os vídeos de finalizações, dicas, day after no youtube, nenhum funcionou para meu cabelo.

    Não consigo de maneira alguma me achar bonita com ele natural, apesar de ter recebido elogios… Tiro várias fotos para tentar ver se acostumo, mas por enquanto nada!

    Estou cansada de ter que secar e pranchar todas as vezes que lavo, estou cansada de não poder aproveitar uma praia e quase morrer do coração se vou viajar e esqueço de levar minha chapinha, medo de fazer academia, medo de entrar na piscina…. Estou cansada do medo da umidade, da chuva!

    mas fiquei cansada de ter medo do vento porque o cabelo arma mais, ter medo de deitar e desmanchar as ondas/cachos, experimentar muitos cremes para pentear e me atrasar para o trabalho de manhã tentando ter um day after descente…
    Sinceramente não sei o que fazer, estou triste com tudo isso.

    Desculpa o tamanho o texto, mas foi bom compartilhar.

    • Aline, não tem que pedir desculpas. Obrigada por compartilhar a sua história. Queria muito poder te ajudar. Meu cabelo é 4B, bem diferente do seu, mas prometo que vou me informar mais sobre os ondulados. Você já foi em algum profissional especializado em cabelo cacheado? Sinto muito pelo que você está passando, mas tente não voltar para a química. Não desista do seu cabelo. Conte comigo. Abraço!

      • Aline

        Adriana, muito obrigada pelo seu carinho e atenção. Só de você ler a minha história e apoiar já fico muito grata e feliz.
        Ainda não fui a um salão especializado, vou procurar!!!

        Deus abençoe muito a sua vida, você é uma lindeza.

        • Gabriella Soller Mascarenhas

          Olá Aline, li seu comentário e vi seu dilema. Não sei nd sobre seu ”conceito cabelos bonitos”, e nem como vc usa ele no seu dia a dia, Mas li que vc tem a raiz lisa e por um bom tempo fica sem refazer a progressiva. Já experimentou/pensou na possibilidade ou até tentou fazer um corte legal curtinho? Eu sei que seria bem mais legal vc visitar um visagista ou especialista em cachos, mas se vc sempre teve o cabelão grandão e tem a imagem dele de quando vc era mais nova, as vezes seria legal cogitar essa possibilidade e talvez até descobrir um novo estilo de vc mesma… Bom, eu sou suspeita pra falar pq ADORO os curtinhos independente da textura. Mas da um pesquisada… quem sabe é um jeito novo de se descobrir 😉

          • Aline

            Oi Gabriella, obrigada por ter lido.

            Hoje eu tenho 31 anos, na adolescência sempre mantive ele na altura dos ombros mais ou menos, porque assim conseguia fazer aquela touca de grampo para mais fácil.

            Depois da progressiva sempre mantive ele longo e hoje tenho ele no meio das costas mais ou menos e tenho um corte em camadas.
            Tenho tentado me adaptar com as ondas, mas acho que ainda não encontrei a maneira correta de finalizar, se eu uso pouco creme, fico um volumão que me incomoda bastante ( eu vejo a beleza dos cabelos com volume, mas creio que isso seja mais pessoal, por não me sentir confortável mesmo).

            Agora se uso um pouco mais de creme fica pesado, mesmo depois de seco e amassadinho… Já tentei creme, gel e por ai vai!
            Quanto ao curto eu tenho panico de tesoura hahahahahahah
            Minha mãe ama e sempre fala para eu cortar um pouco mais… Mas tenho muito medo, ainda sou um pouco insegura com a aparência sabe!? Ainda não me libertei totalmente das opiniões das pessoas.
            Bom, vou pensar com carinho da sua dica e pesquisar um pouquinho mais sobre os curtos.

            Obrigada pela dica.

            bjo ^_^

    • BuffyDawn Summers

      Meu cabelo é como o seu, fino e qualquer coisa o frizz já aparece, sendo que não tenho frizz após a finalização. Não tenho day afters. Não tenho paciência para fronhas de seda, abacaxis e coisa e tal. No máximo enxugo meu cabelo com uma camiseta, mas só se tiver a mão, se não vai o toalhão mesmo, que não esfrego na cabeça, mas espremo o cabelo nela.
      Não vejo problema algum em molhar todo dia. Venho fazendo isso a 30 anos. Minha rotina hoje é lavar com shampoo sem sulfato 1 vez na semana (alterno entre l’oreal absolut control shampoo creme e o redken curvaceous, e uso o color fixation da Surya quando faço reconstrução ou tonalizo meu cabelo), usar condicionador toda lavagem (surya coco e ucuuba, surya color fixation, inoar macadamia, aussie moist, mas hoje uso o Pantene hidratação intensiva) e faço cronograma: hidratação (pantene hidratação intensiva e l’anza moi moi), nutrição (elsevier reparação total 5 e l’oreal mythic oil) e reconstrução (amend repositor de massa e joico deep repair). Uso as máscaras alternadamente e tenho cuidado de escolher produos sem parabenos. A cada 15 dias, faço o último enxague da lavagem com vinagre de maça em água (1 xicara de vinagre para 5 xicaras de água). Bani sulfato e parabenos, mas continuo usando produtos com silicone. Então, 1 vez no mês lavo com shampoo com baixa concentração de sulfato (inoar da linha macadâmia). Na finalização uso o leave in macadamia da inoar combinado com o gel creme ativador de cachos forte da Yenzah (ou combinado com lola creoula). Raramente uso secador/difusor pois prefiro deixar meu cabelo secar ao ar livre mesmo.
      Ah! E ainda sou ruiva (de farmácia, eheheheheheh).
      Parece trabalhoso, mas o tempinho que dedico a mim é uma verdadeira terapia. Deixar o mundo lá fora por um tempinho é ótimo. Faço tudo em casa mesmo… com uma tacinha de vinho do lado.

  • Carol Farias

    Estou nesse dilema. Estou com 7 meses sem nenhum tipo de quimica. E honestamente estou pensando em desistir. Sei que esta só começando. É muito dificil.

    • Carol, 7 meses é um bom tempo, parabéns! Já pensou em fazer o bc agora? Eu sei o quanto é difícil lidar com as duas texturas, mas coragem e tesoura resolvem isso! Ter o cabelo curto pode incomodar a sociedade, mas com certeza será um grande libertação para você. Pense nisso. Bjão!

  • Winnie Costa

    Texto simplesmente MAGNÍFICO! Parecia estar me descrevendo nele.. eh incrivel como cada vez mais me identifico com tudo que vejo e leio por aqui.
    Seu trabalho me inspira muito e tenho certeza que eu n sou a unica! Muito obrigada por compartilhar um pouquinho da sua historia. Muita gente precisando ler isso… =)

    • Winnie, obrigada! Que bom que está gostando do blog. Fico muito feliz em saber disso. Espero ajudar muito mais <3 Bjão!

  • Gabriella Soller Mascarenhas

    CARA… É exatamente como eu penso! Eu não AGUENTO MAIS essa escravidão da chapinhas X alisantes X piscinas X secador X cortes X tintas que eu posso e não posso passar pq meu cabelo não é natural! Depois de ler quase td desse blog, essa semana estou decidida a fazer o BC! Parabéns pelo seu trabalho e sua visão de estética que é pra todos/todas.

    • Gabi, fico muito feliz em saber que você leu o blog quase todo rsrsrs Não fique presa a nada que não te deixa feliz. Faça o bc mesmo, assim que vc se sentir pronta. Obrigada pelo comentário <3 Bjão!

  • Monalisa Nunes

    Que post lindo!!! *___* Aposto que todo mundo se identifica com essas palavras! =D

  • Márcia Sampaio

    Excelente texto! Adorei o seu blog e o modo como apresenta as diversas formas de beleza. Parabéns!

    • Márcia, obrigada!! Fico feliz que tenha gostado 🙂

  • BuffyDawn Summers

    Eu e meu cabelo cacheado! Eheheheh… nunca tive a neura do cabelo liso, embora usasse ele muito preso quando criança por causa do volumão (ao estilo vassourão), que nunca gostei, mas tudo era mais por não saber cuidar.
    Todo mundo achava que eu tinha cabelo liso ondulado e foi um pandemônio quando minhas amigas descobriram meu cachos. Tipo, TODAS ELAS queriam ter meu cachos, queriam saber qual a permanente (eheheeh) e foi difícil convencê-las que era natural.
    De repente, eu, a clássica tomboy (apesar do meu interesse nos garotos, obviamente era taxada de lésbica), ganhei algo “mulherzinha” que fazia minhas amigas me invejarem… ehehehehe. Nunca mais deixei meus cachos presos.
    Como a vida é cheia de ironia, precisei dos meus cachos para sr aceita na sociedade. Kkkkkkkk

    • Nossa, sua história é totalmente um ponto fora da curva, mas que bom que foi assim, né? kkkkkk

  • Priscila Batista

    Eu me sentia linda, maravilhosa e diva de cabelo alisado, MAS bastava um fio fora do lugar ou a raiz ficando alta pra neurose bater. E o que considero pior: todas as vezes que deixei de sair de casa pq tinha de lavar o cabelo, esperar secar e passar a chapinha. Eu tava perdendo de viver a vida por causa de cabelo.. :/

    • Pri, sei como é! Não tem coisa pior do que a sensação de prisão e não tem nada melhor do que a liberdade; é por isso que escolhemos vivê-la.
      Um beijo!

  • Samara

    Esse texto me ajudou muito, sério. Estou passando pelo 4º mês de transição e tava pensando em desistir, mas aí eu vi esse xodozin de post, e isso me ajudou a lembrar do quanto eu sofria psicologicamente com o cabelo escovado de domingo a domingo. Um dia, cheguei até a chorar pra minha irmã escovar meu cabelo as 4 horas da manhã pra poder eu ir pra escola, pq no dia anterior não tinha achado ninguém pra escovar meu cabelo. Isso me fez refletir muito sobre o que eu realmente quero pro meu cabelo. Decidi continuar a transição e me descobrir de verdade, mesmo que seja aos poucos. Obrigada!

  • Bincs

    Um dos textos mais maravilhosos e inspiradores que eu já li. Meu cabelo sempre teve muito volume e os cachos eram indefinidos. Eram precisos 1h( pra mais) enrolando mecha por mecha para criar meus cachinhos. Após isso, achava maravilhoso essa solução, até a próxima lavagem, quando geralmente eu prendia meus cabelos molhados todo santo dia. Sempre sonhei com o famoso cabelo liso enorme e um dia resolvi que iria tê-lo. Muitas progressivas depois, meu cabelo foi ficando fraco, quebrando e quando a raiz voltava, me sentia deprimida. Mas apesar de tudo isso, não desistia, meu cabelo estava enorme como eu queria, porém, não estava nada saudável. Resolvi abandonar a progressiva. Fiquei cerca de 4 meses sem passar química e minha raiz já estava gritando, não aguentava mais. Até que fui na cabelereira e me deram uma solução que aparentemente maravilhosa: permanente. Toda animada, sabia que meu cabelo não estava pronto para outra química, mas a ansiedade foi maior. Fiz o permante e fui alertada que não poderia fazer outra química porque ai sim meu cabelo ia cair e não pegou nele por completo. Meu cabelo quebrou um pouco, além da queda, mas estava mais definido. Fico olhando todos os dias para meu cabelo liso e eu realmente me sentia bonita, sensação na qual eu não sinto agora. Minha mãe tem me apoiado bastante e não deixa desistir da transição mas geralmente não tenho nem muita vontade de sair pois me sinto mal, eu também busco certo apoio em todos esses depoimentos e o seu foi o que me inspirou. Obrigada de verdade!